pra refletir

O SOFRIMENTO FOI DECLARADO CULPADO

20:56Giulia Britto



     Aconteceu. Não foi agora, nem há pouco tempo, mas a revolta me atingiu e de um caso sério assim, a revolta tardia não é um problema tão grave quanto a não revolta. Aconteceu... O sofrimento foi declarado culpado! Prenderam ele em corações frios e a pena foi de que ele nem sequer seja mencionado – exceto apenas em caso de lágrimas inevitáveis e somente para amigos próximos.
     Coitado, não teve a chance de se defender nem de escolher o advogado. Lhes indicaram um coração magoado para ir a julgamento contra uma razão inflexível. Um foi logo convencido pelo outro e a coisa toda aconteceu muito rápido. Parecia muito claro: “o sofrimento não faz bem, nos deixa tristes, então deve ser renegado” aliás, a tristeza foi julgada logo em seguida – culpada!.
     Se tivessem colocado a subjetividade nesse tribunal, expressa nas artes ou na literatura, a acusação não teria para onde fugir – a não ser para o sofrimento. Ela lhe mostraria com a cabeça erguida e o orgulho no peito a história, com telas e telas belíssimas e cheias de sofrimento – “e” porque sofrimento não deve adversar –. Quantos livros nos fugiriam à existência se não fosse o sofrer de seus autores? Não teríamos sido poetas, sonhado nem amado na vida. Sem falar nos movimentos que nasceram desse sentimento. O sofrimento se revolta através da subjetividade.
     Já vieram a me dizer, em alto e bom som, que ele é a fonte da nossa inspiração. Concordo, às vezes, e confesso que até acho graça “sofrer pra sermos criativos”, mas acredito que a inspiração já está lá, o sofrimento só nos liberta a ponto de percebê-la. Aceitar o sofrimento é se aceitar – depois disso cabe a nós aprender a lidar –.
     Em caso de dúvida, não vim aqui falar da importância do sofrimento pra subjetividade, nem da importância da subjetividade pra humanidade – por mais que acredite ser imensurável – deixemos essas para outros textos. Em caso de dúvida, venho aqui riscar algumas palavras dessas frases e lembrar da importância do sofrimento pra humanidade – assim, no sentido de gente, que é singular mas que também é plural –.
     Estamos nos tornando criaturas de carne que procuram ser de metal, mas lembremos de quem foi e sonhava em ter um coração. As emoções são apenas respostas do nosso corpo para a vida, o sofrimento só responde a uma pergunta mais difícil. Então porque se calar?


TEXTO E ILUSTRAÇÃO: GIULIA BRITTO.

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